Elogio da Intolerância

"Talvez o mundo não seja pequeno Nem seja a vida um fato consumado" *

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Uma estrada leva sempre a algum lado



Hopeless emptiness. Now you’ve said it. Plenty of people are onto the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness.

John Givings (Michael Shannon) – Revolutionary Road


Hopeless emptiness. Now you've said it. Plenty of people are onto the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness.


John Givings (Michael Shannon) in Revolutionary Road

Revolutionary Road é um maravilhoso filme realizado por Sam Mendes (American Beauty, Road to Perdition) sobre um jovem, inteligente e bonito casal norte-americano dos anos 50. Depois de se conhecerem numa festa, Frank (Leonardo Di Caprio) e April (Kate Winslet) apaixonam-se, casam, têm filhos e entram na rotina, por esta ordem. A rotina inclui uma casa nos subúrbios, uma actriz falhada destinada a ser dona de casa, fato e gravata para ele, um trabalho numa grande firma e um flirt extra-conjugal. Não fosse o facto de este casal ter sonhos de uma liberdade real, os muitos martinis, whiskys e cigarros bastariam para preencher o vazio e enganar o desespero. April é o motor que despoleta estes sonhos, é ela quem torna verdadeiro o desespero de uma vida vazia e sem sentido ao convencer Frank a mudarem-se para Paris, na Europa, para que ele possa descobrir o que quer fazer da vida, enquanto ela o sustenta.

(April)... Look at us! We've bought into the same ridiculous delusion. This idea that you have to resign from life and settle down the moment you have children. And we've been punishing each other for it. But Frank, listen to me: It's what you are that's being stifled here. It's what you are that's being denied and denied and denied in this kind of life. (Frank) And what's that? (April) Don't you know...? He looks at her. She gazes back at him. (April) You're the most valuable and wonderful thing in the world...You're a man. Frank looks at her. In that moment, he loves her more than ever before. He kisses her. (April) This is our chance, Frank. This is our one chance. (Frank) Okay.(April)Okay? (Frank) Why not...? Why the hell not?

Há momentos que parecem saídos de um filme de David Lynch. Há um momento muito preciso em que estão April, Frank e uma agente imobiliária (Mrs. Givings) num carro a caminho da casa de Frank e April nos subúrbios, que será o principal cenário do filme. Mrs. Givings é, naturalmente, uma personagem plástica sintomática da sociedade norte-americana, uma personagem com um discurso semelhante a si mesma. E a ironia é que é ela quem os leva a Revolutionary Road.

(Mrs. Givings) As you see, Crawford Road is mostly these little cinder-blocky, pick-up trucky places. Plumbers, carpenters, little local people of that sort. (...)
But eventually... (she points, her arm fully extended) Eventually it leads up to Revolutionary Road, which is much nicer.


E este é para mim o momento mais genial do filme. Aquele em que nos é apresentada a possibilidade de um sonho. Revolutionary Road é o Mulholland Drive de Sam Mendes, um sítio algures na fronteira entre sonho e realidade. É, aliás, um lugar assumidamente estranho - os filhos, por exemplo, apesar de existirem estão demasiadas vezes ausentes de casa e, a meu ver propositadamente, não é sequer dada uma explicação consistente para isto.

Na lentidão do filme, que se arrasta genialmente ao ritmo a que April empacota livros e brinquedos de criança, vivemos intensamente o seu desespero para manter Frank ancorado a este sonho, que ela acredita ser belo. E é. Durante uns tempos Frank também acredita e eles voltam a fazer amor e redescobrem-se um ao outro, os diálogos entre os dois afastam-se da plasticidade e são puro amor e esperança e nós também queremos mesmo acreditar que aquilo vai resultar. E respiramos de alívio ao vermos um Frank corajoso, sem defesas, decidido a acreditar. Quase ao mesmo tempo assistimos impotentes, como April, à sua gradual queda na "realidade".

Nota: Os textos a itálico são partes do fantástico guião de Revolutionary Road adaptado (do livro original de Richard Yates) por Justin Haythe.

Escrito originalmente aqui

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Depressão

(publicado originalmente aqui)

A depressão é o grande mal do século 21. Isto só pode estar ligado ao excesso a que estamos sujeitos. Excesso de telefonemas e de solicitações, excesso de uma estranha interacção social, excesso de roupa, excesso de compras, excesso de má informação (e mesmo excesso de boa informação), excesso de trabalho, excesso de palavras, etc. E nada disto é bom, nada disto tem qualidade, é apenas excessivo, deixando-nos com pouco tempo para relaxar, fechando porta atrás de porta para os simples prazeres da vida.

A depressão é uma tristeza profunda, constante, sem razão aparente ou concreta. No fundo é uma enorme falta de vontade de participar da vida social (que se confunde com a vida em si). Mas a depressão não é genética, como se diz, é quanto muito um gene social e infelizmente um gene social que se entranha em todos os seres que nascem num determinado tipo de construção social.

No pólo oposto há um tipo de pessoas bem integradas no sistema, satisfeitas consigo mesmas e com o papel que desempenham. Não sendo necessariamente más, estas pessoas são esquisitas, vazias e superficiais. É aqui que gostava de explicar que existem duas possibilidades de existência: a) no seio da vida social e b) na vida em si. Na hipótese a vivem vários seres, a maioria. Acontece que a hipótese a é essencialmente subjectiva por várias razões: 1) a grande maioria da maioria que vive no seio da vida social gostaria de viver na vida em si e sente-se insatisfeita por se ver obrigada a viver uma vida em que não se reconhece (a depressão também tem raízes aqui), 2) as pessoas que vivem contentes no seio da vida social encontram-se essencialmente alienadas de vários princípios básicos da existência humana, tendo (à semelhança do que acontece em rituais religiosos mais fanáticos) arranjado conceitos e perspectivas que servem para explicar esta alienação, substituindo-os por conceitos, esses sim genéticos, do ser-humano e da vida “natural” e 3) o próprio conceito de vida social é, em si, fictício uma vez que a vida em sociedade se tem direccionado para um afastamento do Outro, fomentando a individualidade e a competição entre os seres, deixando-os, enfim, cada vez mais sós. Sendo este conceito a essencialmente de cariz político-económico, também é óbvio que o conceito b, da vida em si, é bastante mais espiritual, pondo o homem acima da máquina, como devia ser. No conceito b encaixam-se cada vez mais pessoas, essencialmente provenientes de um meio artístico e livre de correntes laborais apertadas. Fogem da cidade pelo que ela representa, uma imagem do sistema capitalista, ou acalentam esse sonho. E, por outro lado, haverá pessoas que querem fugir da vida em si? Poderemos integrar nesta categoria a população rural que quase sempre ambiciona dirigir-se às cidades prometidas?

Acreditando estas pessoas que a vida no seio social das grandes cidades é uma garantia para uma vida melhor, penso que teremos que as colocar noutra categoria (uma c, talvez). Portanto a vida em si está apenas reservada para aqueles que a escolhem, ou que a valorizam, ao passo que a vida no seio da vida social seria válida apenas para os que se sentem felizes por lá habitar.

Restam duas categorias, que são como duas setas em sentido inverso. A categoria c) é a dos que se dirigem, mental ou fisicamente, para a vida no seio da vida social e a categoria d) seria a dos deprimidos que não se encaixam nem são felizes no seio da vida social, mas que não vêm como hipótese (por limitações mentais, espirituais ou económicas) a entrada na vida em si porque 1) Não acreditam que ela seja possível? 2) O trabalho excessivo, e tudo o que está associado à vida no seio da vida social, limita-os e esgota-os, atirando-os para um buraco mental? 3) As imposições económicas não lhes permitem evolução espiritual?

A isto já não me atrevo a responder assim de cabeça. Posso apenas lembrar-me que a idealização de revoluções (nomeadamente as comunistas) partiram de burgueses e não de camponeses.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

dói-me e não sinto a cabeça

Packing (post de interrupção ao jogo)

Fazemos uma pausa na emissão deste jogo para...

Pronto. Mais uma mudança de casa (reflexo da minha instabilidade?). Esta mantém-se como porto de abrigo, como a outra que tem os posts escondidos. Porque sempre me doeu apagar memórias. Agora estou mais feliz. It's all about love.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Jogar é uma coisa a sério

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Às vezes o sol é escuro

sábado, 16 de maio de 2009

Queremos sempre o que não podemos

* Cálice, Chico Buarque e Gilberto Gil

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